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Bola de Neve E-mail
Por João Borba   
15 de agosto de 2006

 
  bola de neve                                                        

    Gostaria de fazer aqui o relato de um estranhamento: vamos falar um pouco sobre o PCC e os pequenos contrastes do cotidiano...    

    Estava com minha namorada assistindo a uma simpática comédia norteamericana sobre um professor querido e respeitado de uma cidadezinha interiorana, que todos descobrem ser gay, coisa de que ele próprio ainda não havia se dado conta. Era um desses filmes de militância, em defesa das minorias sexuais marginalizadas. Mas talvez por ser antigo, não assumia aquele chato tom habitual de protesto, e as reações mais preconceituosas dos personagens se davam em tintas suaves, como se fossem uma mera incompreensão, a ser sanada com o tempo. O protagonista chega a ser demitido da escola, mas era apenas uma incompreensão de seu "amigo antiquado", o diretor... — acho que o público norteamericano, na época, ainda não havia assimilado muito bem o caráter criminoso da discriminação das diferenças. O resultado foi bom para o filme, ele ganhou uma leveza e uma graça que não teria de outro modo. Uma pena que a realidade seja bem diferente, e os protestos insuportavelmente chatos sejam mesmo necessários.
    Enfim, era uma dessas comédias em que a gente fica com um sorriso estampado na cara do começo ao fim, e com a sensação de que todas as pessoas no mundo são fundamentalmente bondosas e capazes de aceitar razoavelmente bem as diferenças. Só que não deu pra manter o sorriso, porque no meio do filme a transmissão foi interrompida, e tomada por um curta-metragem tosco e nada cor-de-rosa, que não estava programado: o filme do PCC, que havia seqüestrado um repórter e prometia libertá-lo se isso fosse posto no ar.

   
    Aquilo foi estarrecedor. Através da telinha da TV, toda a insanidade da violência que vem se apoderando de São Paulo, mas que tentamos ridiculamente ignorar (... porque parece ser a nossa única defesa), de repente invadia a intimidade do nosso lar, e tirava o gosto da nossa pipoca. Mas o mais estarrecedor, o mais perturbador, o mais incompreensível, era o fato de que o PCC pedia que as autoridades seguissem as leis! — E o pedia lendo com monotonia um discurso escrito nitidamente por alguém que domina a linguagem das leis... (aquela mesma linguagem esdrúxula em que os advogados e juízes se acastelaram ao longo da História, e que acabou tornando impossível a um cidadão comum defender-se por si mesmo em um tribunal).     

    Céus! — Começam sequestrando um repórter, terminam ameaçando as famílias dos policiais caso os policiais continuem "mexendo" com as suas... (os policiais estão mexendo com as famílias deles, fora das prisões?!), comportam-se como numa daquelas vendetas assassinas entre famílias nordestinas... e entre uma ponta e outra, querem a proteção da lei! O que está acontecendo, afinal? alguém entende exatamente o que está acontecendo?! Será que alguma coisa neste mundo ainda faz sentido?    

    Pequenos contrastes

    Mês passado, em uma conversa com um amigo (que é filho de filósofo e, apesar de não se dar conta, tem ele próprio uma cabeça meio filosófica), surgiu a questão da presença constante dos contrastes, que percebemos entre as coisas que existem na nossa vida. Cada coisa ao nosso redor é diferente da coisa ao lado, e do mesmo modo, uma sensação é diferente de outra, uma idéia é diferente de outra, uma situação é diferente da situação seguinte. Quando duas coisas quaisquer são diferentes uma da outra, existe um certo contraste entre elas, e quanto a isto não importa se estamos falando de duas coisas que estão presentes ao mesmo tempo uma junto à outra, ou se estamos falando de um contraste no tempo, de uma coisa diferente que surge depois da outra.    

    Nossa vida cotidiana — ou nossa percepção do mundo em que vivemos — é um tecido de milhões e milhões de pequenos contrastes que mudam o tempo todo, mas que têm uma certa regularidade, certos padrões que se repetem milhões e milhões de vezes e aos quais estamos acostumados. Algumas coisas apresentam um contraste maior com as outras ao redor, e então se destacam mais na nossa atenção (os jornalistas costumam ter um sentido muito aguçado para isso, porque é o que vende notícia). Esse destaque, a partir de uma certa intensidade, quando começa a destacar-se mais do que aquilo a que estamos acostumados e a romper com os nossos padrões habituais, torna as coisas estranhas — como se a própria realidade começasse a escapar-nos por debaixo dos pés. E isso em geral nos traz uma sensação de caos, de desorientação, de incerteza, de vertigem ou abismo sem onde nos segurarmos. Essa sensação pode ser incômoda, divertida, assustadora, irritante... depende do perfil de cada um e do tipo de coisa estranha de que estamos falando.
    O vídeo do PCC foi um desses destaques estranhos e perturbadores. Não parecia real.

    Experiências-limite


    Antonin Artaud, um surrealista que escreveu muito e coisas muito interessantes sobre a arte da encenação e suas relações com a vida, merecia ser mais lido. Em um ensaio chamado O teatro e a peste — no livro O teatro e seu duplo — descreve um caso curiossíssimo que se passou na Idade Média. Um navio estava se aproximando de uma cidade portuária, e correu o boato de que os tripulantes estavam contaminados com a peste. O pânico se alastrou rapidamente. Não havia tempo para fugir. Ninguém chegaria a uma distância suficiente, porque todos sabiam o quão rapidamente a peste se espalharia. Era o fim. A cidade estava condenada. Estavam todos mortos, era só uma questão de tempo.
    Diante disso, parece que todas as regras romperam-se. Houve estupros, assassinatos, depredações. As personalidades se romperam, cada pessoa passou a sentir, a pensar e a agir de maneira que dias antes seria absolutamente impensável. Segundo Artaud, há registros históricos de tudo isso (...talvez pessoas tenham escrito, narrando o que se passava).  No caso mais impressinoante, um sujeito, examinando-se em desespero diante do espelho, começou a apresentar de repente, por todo o corpo, as feridas da peste... e ali mesmo, morreu. Com todos os sintomas da doença. — Só que não tinha nada. O navio chegou e encontrou a cidade devastada. Não havia peste a bordo. O boato... era apenas boato.
    Situações como esta, em que todos os padrões habituais da vida se rompem, e com eles todo o sentido de realidade, são situações-limite, situações em que se chega aos limites de toda a regulagem da realidade cotidiana, aos limites de todas as suas regularidades, de tudo aquilo que é regra e a que estamos acostumados. E nessas ocasiões, em que essa regulagem perigosamente se perde a qualquer movimento, tudo o que se experimenta parece inusidado, estranho, incompreensível, com todas as sensações e sentimentos que vêm junto com isso.
    Nas situações-limite, nossas experiências também se tornam experiências-limite, e na verdade muitas vezes é difícil distinguir uma coisa da outra. Se é uma situação real que nos arrasta para experiências-limite, ou se são experiências-limite — como no caso da cidade medieval de Artaud — que acabam gerando uma situação-limite real, concreta. De qualquer modo, uma coisa tende a alimentar a outra e vice-versa.
    É uma bola de neve. 

     Partido do Comando da Capital?

    A questão é que bolas de neve como esta são uma estratégia clássica, não propriamente na história do crime organizado... mas na história política mundial,  uma estratégia de grupos golpistas. Já existe quem compara o PCC às Farc, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, que de partido político comunista tornaram-se um grupo de crime organizado. Aqui estaríamos apenas no caminho contrário.    

    Lamento sentir-me forçado a concluir que comparações como esta talvez não sejam meras figuras de linguagem. A corrupção tem igualado autoridades políticas e criminosos. Que fique claro, antes que queiram nos calar a boca: a corrupção, como fato, e não o discurso crítico a esse respeito nos meios de comunicação. Agora, estamos em período de campanhas. A ditadura, tampos atrás, obrigou os agrupamentos políticos a colocarem todos um "P" no início de suas siglas se quisessem atuar como partidos. O PCC, com seu perfil claramente autoritário, já se adiantou, ainda nem é partido e já tem o "P" no início da sigla. Agora, acabam de lançar sua plataforma eleitoral, em defesa de certos grupos marginalizados pela sociedade, em seu horário gratuito na globo... uma combinação aliás que faz a gente pensar: defesa de minorias marginalizadas (normalmente coisa "nossa", digo, das esquerdas) e postura ultradireitista, de apelo às autoridades, tendo como autoridade máxima o cano da metralhadora. 

    O que seria o governo de um "partido" como o PCC? Certamente as telinhas, que resumem a porta de entrada principal da esfera pública (como algo que podemos sentir pelo menos um pouco presente) em nossas vidas cotidianas, passariam a mostrar freqüentemente as  imagens de sujeitos armados até os dentes, explicando por que foi que deram um sumiço em tal jornalista, afinal... talvez só não estejam mais encapuzados, mas usando algum uniforme oficial (talvez o dos antigos policiais, se não tiver ficado com muitos furos de bala).

    Imagino que esse tipo de imagem, que hoje ainda se destaca dos pequenos contrastes cotidianos a ponto de nos assustar, se tornaria o padrão regular das coisas, se tornaria parte dos nossos pequenos contrastes cotidianos, como aqueles protestos chatos de filmes de militância em defesa de minorias, aos quais já estamos tão acostumados... só que esses caras do PCC e os "seus protegidos",  já não seriam mais uma minoria vitimada pelo preconceito (ou no caso, pelo  descaso) que precisa realmente protestar para conseguir uma vida minimamente decente...

    Pensemos um pouco nisto, e nos nossos queridos governantes que, lá nos picos gelados do poder (e até os que eram do mesmo partido) passaram tanto tempo brincando de se atirarem flocos de neve uns nos outros enquanto a situação se formava, e se avolumava... e se avolumava... e se avolumava... e se avolumava...















   
   
   


Lista de Comentários


1/1. Excelente texto!
Escrito por Alessandro Bender
Wednesday, August 16 2006
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Parabéns pelo excelente artigo! João Borba apresenta uma reflexão cada vez melhor de nossa situação sócio-política. Alessandro

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