O telespectador assistiu neste domingo ao debate televisivo mais
aguerrido desde o início da campanha eleitoral, com troca de ataques
mútuos do primeiro até o último minuto das cerca de duas horas e meia
destinadas pela TV Bandeirantes para o confronto entre o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Geraldo Alckmin (PSDB).
O tucano diferiu do que os eleitores estão acostumados a ver e adotou
uma postura mais acalorada em suas críticas, não perdendo chances de
atacar o governo Lula nos campos da ética ou da gestão pública.
Lula,
por sua vez, não se manteve na defensiva. Distribuiu seus ataques ora
ao governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ora à gestão de
Alckmin no Estado de São Paulo, com menções a escândalos políticos de
um e de outro.
Os
dois primeiros blocos foram quase que totalmente dedicados à "lavagem
de roupa suja". Ambos os candidatos passaram em revista os escândalos
políticos que vieram à tona nos últimos meses.
Alckmin perguntou para Lula qual a origem do R$ 1,7 milhão que seria utilizado para a compra de um dossiê
contra políticos tucanos. Lula questionou o tucano sobre os 69 pedidos
de CPIs estacionados na Assembléia Legislativa de São Paulo.
O
ex-governador de São Paulo, no entanto, quase não mencionou o escândalo
do "mensalão", enquanto Lula não se aprofundou nas denúncias que
surgiram contra a gestão tucana no Estado.
Corrupção
A
primeira pergunta feita por jornalistas aos presidenciáveis no debate
da Rede Bandeirantes foi dirigida ao presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, candidato à reeleição pelo PT.
Lula
foi questionado se sabia ou não da participação de membros do primeiro
escalão de seu governo em escândalos de corrupção como o mensalão e a
quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa e afirmou que
casos de corrupção anteriores ao seu governo eram jogados para debaixo
do tapete.
"É exatamente por isso que eu quero ser reeleito,
porque eu tenho certeza de quando souber, punirei. O problema é que
durante muitos e muitos anos neste país ninguém sabia porque as coisas
não aconteciam. Porque tinha corrupção, jogava embaixo do tapete."
Lula
afirmou também que perdeu muitos "companheiros" por conta dos
escândalos de corrupção e vai perder quantos precisar. "Eu perdi
companheiros de muito tempo e vou perder, se precisar, quantos for
necessário, do meu partido ou de outros partidos políticos, porque
quando a gente indica uma pessoa para ocupar um cargo, a gente espera
que aquela pessoa cumpra o compromisso com a sociedade", disse.
O
petista voltou a usar metáforas familiares para explicar o
desconhecimento de membros de seu governo nos casos de corrupção.
"Quantas vezes você está na cozinha, acontece uma coisa dentro da sala
com seu filho e você não sabe? Fica sabendo depois", disse.
Segundo
ele, "a lógica da ética não é você saber antes, porque se você souber,
não acontece. A lógica da ética é você punir quando acontece. É você
não acobertar, é você investigar, é você permitir que as instituições
possam trabalhar livremente e isto eu tenho muito orgulho, muito
orgulho de não ter vacilado um minuto em fiscalizar, investigar", disse.
Ao
comentar o tema, o candidato tucano à Presidência da República, Geraldo
Alckmin, afirmou que Lula não responde questões importantes.
"Veja
os telespectadores que o Lula, arrogante esse tempo todo, quando chegam
questões importantes, que visam direto a questão de princípios e
valores, ele não responde. A questão do mensalão foi feita dentro do
Palácio do Planalto, no terceiro andar, pelo seu ministro chefe da Casa
Civil. Não são fatos isolados Lula, não são fatos isolados, mas é uma
lista telefônica de corrupção", disse.
O "mentiroso" contra o "leviano"
O
tom beligerante entre os dois candidatos, no entanto, se manteve
controlado e somente em um momento resvalou para a crítica pessoal.
No
primeiro bloco, os ânimos se exaltaram quando o tucano Geraldo Alckmin
questionou o petista Luiz Inácio Lula da Silva sobre os gastos do
governo federal com o cartão de crédito corporativo --uma espécie de
cartão de crédito pago com recursos públicos.
"Não seja leviano, não seja leviano, pergunte isso ao FHC [ex-presidente Fernando Henrique Cardoso]", disse o petista.
"Respeito, respeito", retrucou o tucano com o dedo apontado para Lula.
O
uso dos cartões de crédito corporativos foi autorizado na administração
pública ainda no governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).
No
segundo bloco, Lula questionou Alckmin sobre as as privatizações
realizadas durante o governo de FHC, o que motivou o segundo momento
mais acirrado da noite.
"Todo mundo sabe que o PFL e o PSDB que
privatizaram esse país. Quando não tiver mais o que vender, o que ele
vai fazer? Vai vender a Amazônia? Só posso responder aquilo que eu sei.
Não disse que o governador vai privatizar, disse que há setores do PFL
e PSDB que querem privatizar até a Petrobras", afirmou o presidente.
"Não
minta, Lula. Não foi o PSDB nem o PFL que falaram em privatização, foi
você que falou. Fico triste com a irresponsabilidade de um presidente
da República ter dito isso. Foi você que falou e vou distribuir isso à
imprensa no fim do debate. É mentira que vou acabar com o Bolsa
Família", rebateu Alckmin. A insinuação de "mentiroso" motivou o comitê
petista a pedir direito de resposta, mas que foi negado pela produção
da "TV Bandeirantes".
Propostas
O debate de
propostas para o país somente começou, realmente, no terceiro bloco do
debate promovido pela "Bandeirantes". Os ataques mútuos, entretanto,
não saíram de cena, em um confronto que continuou acalorado.
O
presidente e candidato Lula questionou Alckmin pelos problemas de
segurança pública em São Paulo, lembrando os ataques do PCC (Primeiro
Comando da Capital).
Alckmin respondeu citando números sobre
redução de homicídios e dizendo que o governo federal cortou recursos
nos repasses para os Estados na área de segurança. Lula replicou,
dizendo que, quando governador, Alckmin havia cortado as verbas para
inteligência policial no Estado.
"Você cortou dinheiro da
segurança pública. Há uma contradição entre os números que você decorou
para esse debate e a realidade do Estado de São Paulo", disse Lula.
"Essa
é uma questão nacional [segurança pública]. Eu não vou me omitir,
jogando a culpa nos governadores", afirmou Alckmin, afirmando que em
todos os Estados há problemas de segurança pública.
Lula trouxe
o governo FHC para a arena quando mencionou a crise energética de 1999
(o "apagão"). Ele questionou Alckmin sobre suas propostas para o setor.
Alckmin minimizou o tema e disse que "houve um problema de falta de energia por questões hídricas. Por falta de chuva".
Pouco
antes, o candidato tucano havia criticado duramente a política externa
do governo Lula, a qual considerou um "fracasso". "[Vaga no] Conselho
de segurança na ONU, perdeu. Diretoria da OMC [Organização Mundial do
Comércio], perdeu. Com a Bolívia, o Brasil foi humilhado, os ativos da
Petrobras foram expropriados", acusou.
Lula respondeu que a
política externa brasileira é "ousada". "É uma política que fez o
Brasil deixar de depender de dois blocos: Europa e Estados Unidos",
disse, justificando que o trato com a Bolívia foi na base do diálogo,
pois "a América Latina é o maior centro comercial brasileiro". "Se tem
uma coisa que o Brasil tem de correto, e que você deveria reconhecer, é
a política externa", revidou.
Ataques até o fim
Os
ataques mútuos não cessaram nem no último dos cinco blocos do debate.
Nas considerações finais, Lula fez a defesa da continuidade, dizendo
que os "alicerces" do desenvolvimento já estavam prontos, mas que
faltava o "madeiramento" e o "teto".
Alckmin retomou a crítica
feita ainda no primeiro minuto do debate: ele havia participado de
todos os outros confrontos entre os candidatos, enquanto Lula se
ausentou. Também bateu na tecla de que o PT "já teve sua chance" e
encerrou sua participação criticando o estado dos hospitais federais.
Pouco
antes, Lula havia questionado Alckmin sobre a qualidade das escolas
paulistas e da existência de "escolas de lata" no Estado. "O Estado de
São Paulo não aceitou fazer o Prova Brasil por medo", alfinetou Lula. O
tucano rebateu dizendo que o Estado não tinha mais "escolas de lata"
mas "projeto Nakamura" --que usa estrutura metálica no telhado e tem
vedação de chapas de aço e madeira.
Audiência
A TV
Bandeirantes informou que o debate entre os dois candidatos rendeu 14,2
pontos de audiência, na média apurada pelo instituto Ibope, em sua
medição prévia. Nos momentos de pico, a emissora chegou aos 20 pontos,
mas não o suficiente para atingir a liderança do horário. A TV
Bandeirantes ainda chegou ao segundo lugar, mas somente por alguns
minutos e revezando-se com o SBT.
Folha Online
link da matéria: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u84901.shtml
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